Notícias de Crato, Ceará.

O campinho de terra batida e as possibilidades

Crianças, adolescentes e até adultos se juntam todas as tardes para jogar bola em Dom Quintino. Uns para relembrar momentos da infância, e outros que sonham ser jogador profissional | Foto: Wagner Pereira

Por Ronuery Rodrigues 

Sob o sol ainda quente de quatro horas, todas as tardes uma turma de meninos do Sítio Ipueira, distrito Dom Quintino, se reúne para jogar bola. O campinho improvisado é uma parte de um terreno pertencente ao seu Valdemar, um senhor que parece não se importar com a brincadeira da molecada. É ali, em meio a muita poeira, que os garotos encontram seu ócio e gastam as energias. Quem caminha todos os dias pela estrada carroçável que liga Dom Quintino a Caririaçu, pode ouvir os gritos de torcida da garotada e dos jogadores pedindo para passar a bola.

As idades são as mais variadas, desde 8 a 17 anos, o suficiente para formar times dos mais diversos com três na linha e um no gol. Mas há ainda algum adulto que se interessa em entrar na brincadeira como, por exemplo, Damião Pereira, que sempre gosta de acompanhar seu sobrinho na partida e relembrar o tempo da infância.

Essa brincadeira, que parece algo sem pretensão, pode gerar futuro com a descoberta de um grande jogador, mas também é um prato cheio de uma análise crítica sobre as privações desses meninos que convivem com a ausência de espaços para práticas esportivas. Ao que me parece, é que o esporte, em particular o Futebol, nessas bandas do Crato, não é levado a sério, é apenas uma brincadeira, onde não há apoio tanto do poder público, quanto do setor privado.

Se perguntarmos a um destes jovens se querem seguir a carreira de jogador profissional a resposta positiva virá de maneira natural e simples. Sem titubear, dizem um SIM! com os olhos brilhando. No entanto, a cada dia que passa, o sonho se distancia como aquela bola que foi chutada para fora do campinho de chão batido. As condições financeiras privam os sonhos desses garotos que em sua maioria são filhos de agricultores e não possuem sequer uma chuteira para jogar na poeira quente da tarde, imagina se fosse para ir a uma escolinha de futebol.

Crianças e adolescentes, como esses, são talentosos desde a habilidade com a bola em campo até o preparo do campinho, que certamente foi limpo com a mesma enxada que planta e capina o roçado de seus pais. E as traves feitas da jurema (planta nativa da caatinga) três varas tortas, duas verticais e outra horizontal fincadas no chão duro, foram cortadas com a foice que serve para “brocar” a roça.

Em meio a estes meninos talvez exista algum capaz de driblar as dificuldades da vida e surgir como grande profissional, assim como fez “Ceará” (Marcos Albuquerque) que saiu de um campinho de terra batida de uma fazenda na zona rural de Caririaçu e constituiu-se um jogador profissional, atuando em times como o Internacional (onde foi campeão mundial “anulando” Ronaldinho Gaúcho), Paris San German (França) e hoje está no Cruzeiro. Ele serve de ídolo para os seus “irmãos” que ainda pelejam um gol na trave torta de jurema do campinho de terra batida.

O campinho é um exemplo de resistência que mostra como muitas comunidades não oferecem oportunidades para práticas esportivas aos jovens na zona urbana e principalmente a esses da zona rural onde as dificuldades financeiras e de acesso são gigantes, mas também quem sabe um dia (se tiver sorte) pode fazer surgir grandes atletas.

O poder público e o setor privado podem ser dois agentes transformadores fomentado neles o gosto pelo esporte. Se isso não acontecer, os meninos continuarão jogando bola como sempre fazem todas as tardes até que a hora diga que está ficando tarde e precise ir pra casa, se não a mãe briga.

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