Notícias de Crato, Ceará.

Padre Ágio | Cratenses que você deveria conhecer #2

Por Rafael Pereira, Estudante de
Jornalismo da UFCA

É numa casa sem muito luxo que vive o Padre Ágio. Subindo os degraus estreitos da morada de mais de 50 anos, lá está ele recluso em uma salinha pequena sentado, lendo ou escrevendo alguma coisa numa mesinha que lhe serve de escrivaninha e cercado por livros em estantes baixas. Essa é a vida pacata desse sacerdote que o tempo conservou quieto e ainda absorvendo a sabedoria do mundo, em suas leituras que duram horas, ou escrevendo em um caderno com uma caligrafia impecável.

Para manter-se neste estado de completa quietude foram precisos anos dedicados ao sacerdócio e principalmente para manter em pé a Sociedade Lírica do Belmonte (SOLIBEL), entidade beneficente da qual é presidente, que acolhe crianças pobres, em sua maioria filhas de agricultores, com o ensino de música, canto e instrumentos musicais.

Seu jeito é de um homem despreocupado que carrega na face a serenidade e o sorriso. Talvez esse seja um dos seus segredos para o elixir da vida que o mantém lúcido aos exatos 98 anos de idade. Mas a mente serena com os dotes de “paz e amor” foi adquirida com o gosto pela música e no ensino dela que o acompanha durante boa parte de sua vida.

Quase centenário, Padre Ágio Moreira leva vida pacata, na certeza do dever cumprido |
Foto: Rafael Pereira - Crato Em Foco

Vocação

A vocação para o sacerdócio descobre ainda adolescente. E a sede para o conhecimento o alimenta desde quando ajudava seu pai, Augusto, na farmácia.  O pai foi um desses aventureiros que saiu do Cariri para São Paulo a fim de concluir o curso de farmácia, e na vez em que se tornou candidato a prefeito da “política suja do Quixará” (hoje Farias Brito), como o próprio padre conta.

Também acompanhou o pai a São Paulo, mas para estudar no seminário, mesmo sem o consentimento da mãe. De lá, regressou a Fortaleza e depois concluiu os estudos no Seminário São José, no Crato. Tornou-se vigário em diversas paróquias da Diocese de Crato, porém dizia que não gostava.

“É por causa do cavalo meu filho”, confessa, rindo, pois levava diversas quedas do animal e este era um dos únicos meios de transporte da época que permitia percorrer quilômetros por capelas distantes no sol a pino. Foi por consentimento do bispo da época que desistiu da vida peregrina de vigário e foi estudar música, gosto que o permitiu a construir uma orquestra no seminário São José, bem como se tornou professor de música por muitos anos no Colégio Estadual Wilson Gonçalves, do qual também foi um dos fundadores, para uma turma de 90 alunos.

O gosto pela tranquilidade o fez adquirir uma casinha (cara na mesa de negociação) no sopé da Serra do Araripe, no sítio Belmonte. Mas não se deu por satisfeito até que construiu, com a ajuda de agricultores e trabalhadores dos engenhos da redondeza, a escolinha de música que também recebeu a doação de instrumentos.

Sejam agricultores ou filhos destes, todos passavam pelos estudos das linhas de partitura para dali sair música, seja no sopro de flauta, o chorar do acordeom, no dedilhar do violão ou num som melancólico de um violino das composições de Beethoven, Mozart, Chopin, Villa-Lobos, ente outros, como das letras populares que tinha em Luiz Gonzaga um dos mestres dignos de estudo.

Filhos da Solibel

Durante quase meio século de existência da escola de música, formaram-se os mais diversos alunos, todos filhos saídos da pobreza. Com o tempo a SOLIBEL edificou seus filhos que se espalharam pelo Brasil e pelo mundo tocando em seus diversos instrumentos o som vindo do Cariri entoado nas composições dos grandes clássicos. Hoje, muitos deles ensinam na escola passando seus conhecimentos para os pequenos que tem vontade.

Amor à vida e à natureza

Além de um grande entendedor de música, padre Ágio também ama a vida e a natureza. Mesmo no auge de seus 90 anos não abria mão de uma pedalada pelas trilhas da chapada, percorrendo todos os dias mais de 48 quilômetros até o Caldas, em Barbalha. Por diversas vezes ele conta que desafiou o fôlego de muito rapaz novo que duvidava que velho não tinha coragem. Escreveu até um livro sobre os benefícios da bicicleta para a saúde.

Outro gosto é o caju, fruta que aprecia ainda hoje. Tem até o livro do caju também. Pratica Yoga e reza missa todos os dias. A paixão por viver, se transformou em música para seus ouvidos onde mudou e ainda muda a vida de muitas crianças da comunidade do Belmonte. Monsenhor Ágio carrega nos anos a alegria e o gosto por estar satisfeito com o que fez.

Sua altivez de mestre e benfeitor não passam assim como não se esvai a lucidez. Simples, acolhe a qualquer um que chega a sua salinha pra conversar. Enquanto a vida passa e seus meninos estão lá fora aprendendo e ensinando, ele está quieto, satisfeito com o que cumpriu. Como ele mesmo diz: “quando eu for embora, vou deixar a SOLIBEL como herança pro Crato”.

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