Notícias de Crato, Ceará.

Verônica Carvalho | Cratenses que você deveria conhecer #1

Verônica Carvalho: “Resistência é feminino, água é feminino, planeta é feminino” |
Foto: Arquivo Pessoal
Texto: Rafael Pereira, 
estudante de Jornalismo da UFCA

A última edição da Cariri Revista trouxe uma homenagem às mulheres do Cariri. A edição especial estampou a foto do rosto de Verônica Carvalho como uma construção de dezenas de retratos de outras mulheres formando um mosaico que terminava mostrando seu semblante. Nessa representação simbólica, a Cariri Revista quis retratar a figura e a personalidade de Verônica como um espelho e uma inspiração para muitas mães de família, jovens, idosas, trabalhadoras, enfim mulheres. Sua história é uma história de luta pelos oprimidos, e principalmente, dos que não têm voz para lutar contra uma sociedade machista que expande a violência em todas as direções. Sua trajetória é uma luta contra a discriminação e o preconceito.

A pergunta seguinte é meio instigante, de quem já chega chegando, querendo invadir seu interior: Quem é Verônica Carvalho? Ela hesita, ri um pouco da surpresa, dá uma volta em toda a sua vida e trajetória. Não dá outra e responde de uma vez sem pensar: “É uma cidadã como outra qualquer, que de repente tá tentando contribuir. Alguém que fica indignada e não fica em cima do muro. Fica indignada com as desigualdades, com as violências. E tenho como propósito da minha vida lutar”.

E em sua vida ela continua lutando desde o tempo que começou com movimentos de paróquia como jovem. Afirma que essa vocação vem desde quando “se entende por gente”. Mas sua identificação está no movimento negro e principalmente no feminismo negro. Católica convicta, vê nas religiões de matriz africana um completo respeito porque acredita que ali está a raiz sagrada de seu povo. Tanto é que criou, junto com sua irmã gêmea Valéria e outras ativistas, o GRUNEC (Grupo de Valorização Negra do Cariri) entidade que tem por objetivo mostrar à sociedade que os negros tiveram, sim, uma grande participação na construção da história da região realizando uma marcha pelo centro de Juazeiro do Norte, todos os anos, com sacerdotes e fiéis do Candomblé. Escolheu defender sua cor não por apenas pertencimento, mas também porque sentiu a vulnerabilidade desse grupo social diante de uma sociedade que discrimina.

Nos movimentos sociais ela também está a frente, em primeiro pelotão, de um rico exército de gays, mulheres e negras para defenderem seus direitos em busca de uma sociedade mais justa. Vê nos movimentos muito entusiasmo reconhecendo que eles ultimamente ganharam muita amplitude com o apoio das universidades. “Mas ainda temos muita coisa pra fazer até conseguirmos de fato essa sociedade que queremos”. Assim é como ela vê os desafios na atualidade em que não apenas basta ir para a rua e gritar, mas é preciso consciência mais humanizada na mente das pessoas, porque o “preconceito é muito grande ainda”, diz.

Ela também se adianta, com suas companheiras, para protestar contra casos de violência contra mulheres no Cariri. O último, ainda sem solução, ela busca respostas para o desaparecimento da jovem Rayane, ocorrido há mais de 70 dias, sem paradeiro e muito menos respostas. Mas reconhece que a Justiça tem suas morosidades, mas vê que durante os últimos tempos tem-se avançado bastante, como a criação da Delegacia da Mulher e a autoridade policial está ouvindo mais para apurar os fatos. Mas vê que na sujeição do homem pela mulher tem gerado no Cariri um verdadeiro matadouro de mulheres, assegurando que as mulheres negras também são vítimas. É contra essa subordinação disciplinar que luta, para mostrar que somos todos iguais independentes de sexo, cor ou orientação sexual.

Foto: Arquivo Pessoal

Sobre sua foto estampada na Cariri Revista, ela diz que foi uma surpresa: “para mim foi bom porque foi uma maneira de me ver, foi interessante me ver”. Esta foto foi para a reportagem especial “Mexeu com uma, mexeu com todas” que fala sofre o feminismo no Cariri. Verônica é humilde o suficiente em afirmar: “Eu quero que as outras negras se vejam também porque eu acho que isso é fruto de uma luta não minha, mas de um conjunto”. É assim que ela assevera, com muita convicção, que a luta e as conquistas não pertencem a ela própria, mas a suas companheiras, sendo uma luta que não é individual, mas coletiva. “Eu não nasci para modelo”, ri.

Hoje, além do GRUNEC, e dos movimentos mulheres, ela atua na Cáritas Diocesana e no Concelho Municipal da Mulher Cratense. Gente de personalidade forte, mas também de alegria e de vontade de viver. O que ela espera da vida?: “Viver meu filho, eu quero é viver!”. Confirma insistentemente que quer ser como qualquer ser humano: viver em paz e com dignidade. Mas ainda está convicta de que a luta não pára, que mesmo ao se aposentar não quer estacionar na vida porque garante que terá mais tempo para as lutas e continuar trabalhando. O que ela vai continuar fazer? “Vou fazer o que tem de ser feito. Como? Resistindo. Resistir e lutando, indo para as ruas e movimentando as pessoas”.


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